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As sondagens não são bolas de cristal

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Com as eleições legislativas a aproximarem-se (10 de março), os estudos de opinião estão outra vez na ordem do dia. Mas, afinal, o que significam e como devemos olhar para eles? Aqui, explicamos-te como são feitos. E porque é que não deves tomar os resultados como garantidos.

 

O que são

As sondagens são um tipo específico de inquérito que é realizado junto de uma amostra de uma determinada população, de forma a que as suas conclusões possam ser extrapoladas para o total do universo em causa. No caso da política, é importante distinguir entre sondagens pré-eleitorais e as sondagens à boca das urnas. As primeiras são um retrato da intenção de voto dos eleitores num dado momento, enquanto as segundas pretendem mostrar em que partido votaram esses mesmos eleitores.

 

Como são feitas

Foquemo-nos nas sondagens pré-eleitorais. Como seria impraticável ouvir todos os eleitores para perceber em quem tencionam votar, o que as empresas de sondagens fazem é reunir um grupo de pessoas (o número é variável, mas, no caso português, serão sempre umas centenas) com características do grupo que se quer estudar. O género, a faixa etária e o local de residência são peças-chave nesta representatividade. Ou seja, é importante que sejam ouvidos homens, mulheres, pessoas de todas as idades e áreas do país. E numa percentagem representativa do universo total. As entrevistas (que habitualmente incluem várias perguntas além da clássica “se as eleições fossem hoje, em quem votaria?”) podem ser feitas presencialmente ou por telefone, sendo a segunda opção a mais comum.

 

“Flops” recentes

As sondagens pré-eleitorais estão, contudo, longe de ser infalíveis. Não faltam provas disso mesmo. Basta lembrarmo-nos das eleições legislativas de 2022, quando nenhuma sondagem previu a maioria absoluta do PS e de António Costa. Ou das autárquicas de 2021, quando todos os estudos de opinião davam Fernando Medina (PS) como vencedor e acabou por ser Carlos Moedas (PSD) a ganhar a Câmara de Lisboa.

E não, isto não acontece só em Portugal. Um dos exemplos mais sonantes é o das presidenciais americanas de 2016: a democrata Hillary Clinton foi sucessivamente sendo apontada como a grande favorita à vitória, mas, no dia, acabou por ser o republicano Donald Trump a fazer a festa.

 

Os riscos

O que explica esta disparidade? Desde logo, algo que já referimos: o facto de as sondagens pré-eleitorais serem um retrato da intenção de voto dos eleitores num dado momento – contrariamente às sondagens à boca das urnas, bem mais fidedignas. Sendo que essa intenção pode alterar-se até ao momento em que o voto é depositado na urna.

Há ainda outros aspetos a ter em conta. Por um lado, os indecisos, que, apesar de tendencialmente representarem uma parte relevante (estima-se que um quarto dos eleitores tome a decisão apenas na última semana), nem sempre são considerados nos resultados que vão sendo divulgados.

Depois, nas sondagens, pouca gente admitir que não vai votar – contrariamente ao que acontece na realidade. O próprio facto de uma grande parte das pessoas recusar responder a sondagens também é relevante. No limite, até a forma como as questões são colocadas.

Além de que se há um partido que aparece claramente à frente, isso poderá ter um efeito desmobilizador entre o eleitorado desse mesmo partido. Ou seja, haver quem pense “ui, está ganho, nem preciso de ir votar”. E claro, também isso condiciona o desfecho das eleições. Quer isto dizer que as sondagens são para esquecer? Longe disso. Simplesmente, temos de ter em conta que elas são retratos dinâmicos. E não bolas de cristal.

Texto: Ana Tulha
Ilustração: Freepik.com